Na beira da lagoa um grupo de cidadãos bem nascidos e cultos admiravam o pato selvagem. Alí perto, com água até o joelho, dois cidadãos pobres pescavam, jogando a rede de tarrafa nas águas. Olhando o pato, um vira para outro e diz: “isso é um galeto!”. Paulo Burgos, do Clube Existencialista do Rio, me contou essa cena, observada durante sua corrida ao redor dos oito quilômetros da Lagoa Rodrigo de Freitas, e concluiu: “o povo não está preocupado com a corrupção e sim com a próxima refeição!”

Essa historia mostra a convivência dos diferentes estágios de desenvolvimento dos grupos sociais brasileiros. Paulo Mercadante, advogado e escritor, no seu livro a “Coerência das Incertezas” me mostrou a construção dos símbolos da sociedade brasileira. Estimulou a reflexão sobre essa situação onde a corrupção impera e a população assiste sem reação.

Entender isso tudo e não botar o culpa no povo foi o desafio que me fiz, numa aposta com o economista Sergio Besserman, sobre a construção de uma nova proposta para essa fase atual da nossa vida política, estimulado por suas formulações de demógrafo ao indicar que o Rio de Janeiro, agora, reflete o que irá acontecer com o Brasil em 10 ou15 anos.

A realidade está todos os dias nos meios de comunicação. A guerra civil disfarçada, o menino baleado na porta da escola, o homicida que devia estar preso e que serrou a empresária. A lista da corrupção dos políticos eleitos. A antropofagia que aumenta a mortalidade infantil com os desvios do dinheiro da saúde, educação, segurança e saneamento básico. Os fiscais do Ibama que vendiam a ocupação dos terrenos de proteção ambiental.

O que todos esses fatos têm em comum é a apropriação indevida de parcelas do poder para obter vantagens particulares com isso. A apropriação do poder faz parte do jogo democrático, é a democracia em ação. Grupos que se julgam éticos se omitem e reclamam, atribuindo responsabilidades a entidades difusas, “governo” ou “autoridades”.

A prática é o critério da verdade (acho que é uma citação de Marx). E a prática política brasileira é construída em torno de três crenças: 1- A Lei para inglês ver, existe mas é para ser burlada em nome de um benefício não muito claro; 2 – A Lei que não pegou (me surpreendi com um empresário que citou isso recentemente apesar da Lei claramente defender seus interesses, preferiu outro caminho); 3 – Ter poder é não precisar cumprir a Lei. Essas três crenças explicam o que está acontecendo.

A responsabilidade é dos bacharéis, dos que se julgam éticos, dos empresários, empreendedores por conta própria, entre os quais me incluo. A culpa é minha que deixei a política de lado, ocupado em prover a sobrevivência. Sou eu que devo pagar o pato. Como parte da classe média assisto a redução das oportunidades, o aumento dos impostos (cruel mais legítimo) e a sonegação documental dos órgãos públicos, essa sim ilegítima.

A resposta que encontro é voltar a organizar meu grupo mais imediato e partir para apropriação do poder. As ferramentas que disponho definem que é através da informação a ação possível. Posso facilitar aos menos informados os dados que precisam para que formem sua própria opinião sobre tudo isso e valorizem seu voto. Posso ajudar a mostrar o que é real e o que é fantasia nas promessas do deputado, senador e governador, indicando qual o papel constitucional real desses cargos.

Não adianta por a culpa nos pobres. Precisamos é dividir os ricos, me diz Paulo Faulhaber, e explica como dividir: entre os que querem construir um país e os que querem ter vantagem em tudo. Acho que ainda estou longe de uma proposta, mas é um começo.